Aprendendo com o turista aprendiz

4 de setembro de 2017 § Deixe um comentário

Neste ano estive em Foz do Iguaçu pela primeira vez. Conheci a Unila e a sua importância, além disso, a potência das águas das Cataratas. Voltando para Porto Alegre de ônibus, estava mais do que necessitado de alguma leitura de retorno. Enquanto esperávamos minha companheira e eu o horário de saída do transporte, fomos a um shopping qualquer. Para minha felicidade havia uma livraria por lá. Pude comprar o novo box que reúne algumas obras do Mário de Andrade, da editora Novo Século. Os livros são: Pauliceia Desvairada, Macunaíma, Amar, verbo intransitivo; e finalmente, Contos Novos. Apesar da qualidade simples do material, pelo preço e boniteza do trabalho, além do conteúdo, é claro, valeu muito. Pude reler Macunaíma (1928), ou ler, pois a leitura compulsória de ensino médio é um fracasso. De antemão, deixo aqui alguns trechos pérolas de Macunaíma, para incitar (re)leituras, entrecortando o nosso texto:

“Então tudo acabou se fazendo a vida real. E os macumbeiros, Macunaíma, Jaime Ovalle, Dodô, Manu Bandeira, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Antônio Bento, todos esses macumbeiros saíram na madrugada” (Mário de Andrade, Macunaíma, p. 67).

 

O que faz do livro vivo é sua possibilidade de engatar-se em nossas trajetórias, dum passado, se atualizar nos afazeres do hoje. Na Unila, apresentei uma comunicação oral em um grupo de trabalho sobre cosmologias afroindígenas; tudo a ver com o mote e glosa de Macunaíma, que era negro e filho de uma “índia tapanhumas”, e em seu percurso, torna-se branco na superfície da pele, visita as macumbas no Rio de Janeiro e apronta poucas e boas em São Paulo, fazendo objetos, pessoas, entidades e tudo o mais, virarem uns nos outros, confundindo as fronteiras entre animado e inanimado, borrando nossas percepções e despertando diversos deleites estéticos sobre o encontro violento, mas também criativo, entre brancos, negros e índios no Brasil.

Embora tenha virado moda criticar tudo que refletiu sobre esse encontro, caso não tenha um linguajar fixo em determinadas políticas identitárias, às vezes muito céleres, mas ainda sim repletas de justificativas e válidas; a linguagem de Mário de Andrade em Macunaíma ultrapassa qualquer tentativa engessada de identificação. Ela é um próprio deslizar-se de experimentações: repleta de termos e falares da Amazônia (muito do Pará, a quem o escritor dedicou diversos escritos e carinhos).

“Os manos levaram um susto. Então Jiguê lembrou que eles podiam ir na Europa também, atrás da muiraquitã. Dinheiro, inda sobravam quarentas contos de cacau vendido. Macunaíma aprovou logo, porém Maanape que era feiticeiro imaginou e concluiu:

– Tem coisa milhor.

– Pois então desembuche!

– Macunaíma finge de pianista, arranja uma pensão do Governo e vai sozinho.

– Mas pra que tanta complicação si a gente possui dinheiro à beça e os manos podem me ajudar na Europa!

– Você tem cada uma que até parece duas! Poder a gente pode sim, porém mano seguindo com arame do Governo não é milhor? É. Pois então!” (idem, p. 117)

A experiência de ler parte da obra no ônibus, no trajeto Foz do Iguaçu – Porto Alegre, foi repleta de saudosismo e reencontros com Mário de Andrade. Mas finalizar o livro já em Belém, quando por lá estive novamente para matar saudades e fazer pesquisa, foi uma experimentação um quanto tanto mística, afinal, findei as páginas em um navio, voltando de Marajó para Belém. Dia esse marcado por diversos medos e receios: faltando energia no terminal hidroviário da capital paraense, com indícios de chuva e ainda mergulhados na noite, eu e todos que estavam no navio provavelmente viram suas vidas submergirem, talvez em definitivo, na forte Baía do Guajará.

águas marajoaras

A literatura sempre ultrapassa. Não foi sem motivo que resolvi cursar Ciências Sociais na Universidade Estadual do Ceará. Querendo ser algo parecido com um escritor, historiador e cientista social, não pensei duas vezes quando vi a grade curricular da UECE, repleta de disciplinas de História do Ceará, das Américas e do Brasil, Literatura, Geografia Humana, Psicologia Social, além das três grandes áreas das ciências sociais, as quais eu não sabia muito bem o que eram, afinal, não tive sociologia no ensino médio. Não sei a quantas anda essa grade da UECE, se já totalmente reformulada ou não, de qualquer modo, sei que estou marcado em definitivo por essa variação um pouco caótica.


Referências:

Andrade, Mário de. Macunaíma. Barueri-SP: Novo Século, 2017.

No longo trecho aeroplano Belém-Porto Alegre, fiz um poema-homenagem para o Mário, caso você se interesse, pode lê-lo aqui.

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