Croniquinha tostada pelo sol

16 de setembro de 2018 § Deixe um comentário

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Uma rua do Álvaro Weyne. Foto do autor.

“Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma”

– Mário de Sá-Carneiro

Minha alma ficou numa praia qualquer de Fortaleza, se afogando sem saber nadar, lembrando dos camarões ao alho e óleo perdidos. Não que não tenha desfrutado desse prato, o contrário é verdade. Mas sempre há espaço para mais, afinal, em matéria de comida sabemos que o alimento é apenas um pedaço da sensação vivida.

Eu não perdi minha alma, ela é que anda perdida, deitada de cara pro sol, na ponte dos ingleses, saudosa do amor de juventude intenso e dramático, das namoradas não tidas, dos erros com as que tiveram esse ocaso sentido. Perdida, também está, pela periferia disso tudo, já longe do oba oba turístico, Praia da Leste Oeste, e mais distante ainda: bairro do Álvaro Weyne, com suas crianças soltando pipa, atrepando-se em caminhões em movimento, brincadeira às vezes fatal. Meninas sendo corrigidas de forma cruel por quererem a liberdade dos meninos (elas ainda hão de vencer, tenho uma irmã por lá, sendo forte, Fortaleza, persistindo na liberdade, ajudando na luta contra os fascismos que por lá, por cá e por todos os lados nos assombram).

Meninos presepeiros, bodegas agitadas de tragos e fofocas. Casas vendendo dindim, peixes betas, chips da Oi 31 anos, jogo do bicho, locadoras de vídeo com filmes estragados e locadoras de videogames, carregada de catinga do furdunço de gente que se enfurnava nos jogos e esqueciam dos asseios diários.

A alminha fica também triste, a lembrar do quintal do Bode Mag(r)o, repleto de capotes, pebas e outros bichos pequenos.

Minha alma paira, ainda, pelo Benfica, penoso de não me ter mais a andar pelas suas ruas, vagando por um bar qualquer, lanchonete, livrarias e bibliotecas, com um caderninho vagabundo de capa mole e estampa de surf, a anotar poesias fraquinhas e ruins, mas que naquele tempo era o sumo de uma vida. Quem é do Benfica fica, mas quem não ficou sabe que carrega uma cidade toda dentro de si a pesar as costas, abaixando a cabeça inteira.

Minha alma ficou triste, órfão do pôr do sol cedinho, do presente que era apreciar a imensa bola de fogo mergulhar nos verdes mares, alaranjado de arrebóis o céu sempre tão jovem dessa cidade do Futuro eterno. Alma apartada do nascer do sol prematuro, incandescendo a escuridão, banhando de luz uma noite insone, ou apenas as horas convencidas de que valeria a pena ficar acordado para mais um espetáculo, afinal, em Fortaleza o sol vem tão logo quanto some. O suficiente para nos tostar e alegrar, quando, obviamente, temos o abrigo de sombras, coqueiros, cajueiros, ingazeiras, juazeiros, constantemente cortados e derrubados sem sentido algum.

Minha alma ficou em Fortaleza, numa rede bem alojada em um armador de parede rebocada, balançando-se no vai e vem, sonolenta do mormaço, acordando-se para um cafezinho com cuscuz, um amor gostoso, uma leitura de poema de Lívio Barreto, outro cearense amoroso de redes e versos.

Não perdi minha alma, ela é que anda perdida por esses tempos, num limbo entre o espaço e o tempo, passado e futuro, esmagada pela crueza do real.


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Como citar Veras, Hermes de Sousa. 2018. “Croniquinha tostada pelo sol”, Publicado em hermesveras.wordpress.com, link:https://goo.gl/CWTcJR. Acesso em [dd/mm/aaaa].

 

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Aprendendo com o turista aprendiz

4 de setembro de 2017 § Deixe um comentário

Neste ano estive em Foz do Iguaçu pela primeira vez.

Conheci a Unila e a sua importância, além disso, a potência das águas das Cataratas. Voltando para Porto Alegre de ônibus, estava mais do que necessitado de alguma leitura de retorno. Enquanto esperávamos minha companheira e eu o horário de saída do transporte, fomos a um shopping qualquer. Para minha felicidade havia uma livraria por lá. Pude comprar o novo box que reúne algumas obras do Mário de Andrade, da editora Novo Século. Os livros são: Pauliceia Desvairada, Macunaíma, Amar, verbo intransitivo; e finalmente, Contos Novos. Apesar da qualidade simples do material, pelo preço e boniteza do trabalho, além do conteúdo, é claro, valeu muito. Pude reler Macunaíma (1928), ou ler, pois a leitura compulsória de ensino médio é um fracasso. De antemão, deixo aqui alguns trechos pérolas de Macunaíma, para incitar (re)leituras, entrecortando o nosso texto:

“Então tudo acabou se fazendo a vida real. E os macumbeiros, Macunaíma, Jaime Ovalle, Dodô, Manu Bandeira, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Antônio Bento, todos esses macumbeiros saíram na madrugada” (Mário de Andrade, Macunaíma, p. 67).

O que faz do livro vivo é sua possibilidade de engatar-se em nossas trajetórias, dum passado, se atualizar nos afazeres do hoje. Na Unila, apresentei uma comunicação oral em um grupo de trabalho sobre cosmologias afroindígenas; tudo a ver com o mote e glosa de Macunaíma, que era negro e filho de uma “índia tapanhumas”, e em seu percurso, torna-se branco na superfície da pele, visita as macumbas no Rio de Janeiro e apronta poucas e boas em São Paulo, fazendo objetos, pessoas, entidades e tudo o mais, virarem uns nos outros, confundindo as fronteiras entre animado e inanimado, borrando nossas percepções e despertando diversos deleites estéticos sobre o encontro violento, mas também criativo, entre brancos, negros e índios no Brasil.

Embora tenha virado moda criticar tudo que refletiu sobre esse encontro, caso não tenha um linguajar fixo em determinadas políticas identitárias, às vezes muito céleres, mas ainda sim repletas de justificativas e válidas; a linguagem de Mário de Andrade em Macunaíma ultrapassa qualquer tentativa engessada de identificação. Ela é um próprio deslizar-se de experimentações: repleta de termos e falares da Amazônia (muito do Pará, a quem o escritor dedicou diversos escritos e carinhos).

“Os manos levaram um susto. Então Jiguê lembrou que eles podiam ir na Europa também, atrás da muiraquitã. Dinheiro, inda sobravam quarentas contos de cacau vendido. Macunaíma aprovou logo, porém Maanape que era feiticeiro imaginou e concluiu:

– Tem coisa milhor.

– Pois então desembuche!

– Macunaíma finge de pianista, arranja uma pensão do Governo e vai sozinho.

– Mas pra que tanta complicação si a gente possui dinheiro à beça e os manos podem me ajudar na Europa!

– Você tem cada uma que até parece duas! Poder a gente pode sim, porém mano seguindo com arame do Governo não é milhor? É. Pois então!” (idem, p. 117)

A experiência de ler parte da obra no ônibus, no trajeto Foz do Iguaçu – Porto Alegre, foi repleta de saudosismo e reencontros com Mário de Andrade. Mas finalizar o livro já em Belém, quando por lá estive novamente para matar saudades e fazer pesquisa, foi uma experimentação um quanto tanto mística, afinal, findei as páginas em um navio, voltando de Marajó para Belém. Dia esse marcado por diversos medos e receios: faltando energia no terminal hidroviário da capital paraense, com indícios de chuva e ainda mergulhados na noite, eu e todos que estavam no navio provavelmente viram suas vidas submergirem, talvez em definitivo, na forte Baía do Guajará.

águas marajoaras

A literatura sempre ultrapassa. Não foi sem motivo que resolvi cursar Ciências Sociais na Universidade Estadual do Ceará. Querendo ser algo parecido com um escritor, historiador e cientista social, não pensei duas vezes quando vi a grade curricular da UECE, repleta de disciplinas de História do Ceará, das Américas e do Brasil, Literatura, Geografia Humana, Psicologia Social, além das três grandes áreas das ciências sociais, as quais eu não sabia muito bem o que eram, afinal, não tive sociologia no ensino médio. Não sei a quantas anda essa grade da UECE, se já totalmente reformulada ou não, de qualquer modo, sei que estou, junto com várias outras pessoas que se aventuraram na área, marcado em definitivo por essa variação-formação um pouco caótica.

 


Referências:

Andrade, Mário de. Macunaíma. Barueri-SP: Novo Século, 2017.

No longo trecho aeroplano Belém-Porto Alegre, fiz um poema-homenagem para o Mário, caso você se interesse, pode lê-lo aqui.

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Como citar Veras, Hermes de Sousa. 2017. “Aprendendo com o turista aprendiz”, Publicado em hermesveras.wordpress.com, link: https://goo.gl/zhgPWs. Acesso em [dd/mm/aaaa].

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