Conto breve

27 de novembro de 2018 § 1 comentário

Tirinha de André Dahmer

Então, é verdade mesmo?

Estávamos distantes, quer dizer, embora todo mundo estivesse com aquele papinho bobo, dizendo todos estão cada vez mais separados por causa da tecnologia, as coisas continuavam as mesmas, sabe? Ao meu lado poderia estar uma pessoa qualquer, poderia mesmo tocar, beijar, até mesmo morder, continuaria não cabendo nada entre eu e essa pessoa. O nada prevalece como sempre. Empatia está faltando no mercado, nas igrejas então, nem me fale.

Mas vamos pensar assim, fazia muito tempo que não nos víamos presencialmente. Ah, nem mesmo por internet.

Eu tinha que contar a ele, o novo presidente do Brasil era um idiota.

“Todos os políticos são imbecis.”

“Dessa vez é diferente, Isaac.”

“Sim, eu vi a reportagem no N Times… Cuidado, querida. A cautela de sempre… Sei lá. A gringarada tá também se metendo por aqui, acham que estamos loucos.”

A conversa era digital, mas ele sempre gostava de escrever como se não estivesse na rede. Não conheço o motivo, mas deixo o jogo recíproco, apesar dos anos virados.

“Sou mulher, não posso esconder. E minha pele…”

“Você sempre foi um isentão, vai tomar no cu.”

Algumas respirações depois, uma ligação de áudio. Não atendo.

“Foi o corretor, quis dizer: Você é um pão. Já o tomar no cu, esse se mantém, seu babaca.”

A distância… mesmo que metafísica —  é uma dádiva.

***

Caso tenha se interessado pelo blog, você pode ir até a página inicial e assiná-lo.

Como citar Veras, Hermes de Sousa. 2018. “Conto breve”, Publicado em hermesveras.wordpress.com, link: https://goo.gl/3aVH5H. Acesso em [dd/mm/aaaa].
Anúncios

Como sumimos minha mãe

25 de outubro de 2018 § Deixe um comentário

Máquina de escrever, por Thay Petit

Eles derrubaram a porta com pontapés, apesar das diversas fechaduras, cadeados e grades. Eram homens imensos, truculentos. Os magros carregavam fuzis. Não houve nenhuma palavra de ordem, de primeiro violência e violência. Dona Manaíra estava na cozinha esquentando nossa janta enquanto eu datilografava meus manuscritos de criança. Mamãe veio correndo desesperada, com palavras soltas tentou salvar-me.

Chutaram a mesa, a máquina caiu no chão e fui arremessado. Um deles me apanhou, antes de qualquer pergunta me socaram o estômago. Vomitei, tornou a me socar e disse que se eu sujasse sua farda novamente ele arrancaria meus dedos com os dentes. Mamãe não pôde fazer nada, foi tudo muito rápido e ao tentar se aproximar, um deles a espancou com o cabo do rifle. Gritei, mas com isso só consegui algumas bofetadas. Dona Manaíra tinha força para se desvencilhar e cravar as unhas no rosto de pelo menos um, arrancar-lhe os olhos, mas conteve-se temendo me perder.

– Então é aqui a casa do comunista.

Ficamos com medo pois sabíamos que ser acusado de subversivo era praticamente um atestado de óbito. Havia tanto medo daquela palavra que nem sabíamos seu significado. Dávamos mais atenção para a acusação absurda do que a palavra em si. Tentei dizer algo, argumentar, mas o falatório deles era sem fim.

– Eles vão aprender a respeitar esse país.

Mamãe falou que não tinha nenhum comunista ali, que ela era apenas uma secretária com curso de datilografia, viúva.

– E o menino? Falou o fardado segurando meus papéis que tinha batido na máquina há pouco. Olha aqui, Garcia, “Sofredores, só podemos padecer. Vermelho, só vejo o vermelho em todo canto”. Explica isso aqui, comunistazinho.

Meu filho não é comunista, senhor, meu filho não é nada, é uma criança de sete anos, vocês estão se equivocando, essa é a casa errada… e mais um golpe de rifle. Cala a boca cadela, eles disseram. E eu me mijava de medo, arrependido de ter batido aquelas palavras que eu nem sabia o que significavam, havia apenas escrito qualquer coisa. Como explicar? E se escuta criança? Não adiantou. Eles passaram a vista em todos os escritos, mas não pareciam realmente ler, queriam apenas censurar o próprio ato de escrever.

– Mãe, diz pra eles, diz que eu nem sei o que escrevi.
Antes dela abrir a boca… mais uma porrada. Mamãe humilhada, sem poder fazer nada. Eu menino aniquilado pelas fardas e as armas, sem saber o que fazer, arrependido de ter escrito aquilo, nunca mais escrevi nada.

Nunca mais vi minha mãe. Nem seu corpo pude achar. E depois de mais de quarenta anos volto a escrever para preservar a memória de Dona Manaíra, de todas as mulheres que sumiram, pensando naqueles que fomos silenciados. Quase me arrependo tendo que ouvir certos comentários, sendo obrigado a encarar os rostos incrédulos dessa plateia.

Caso tenha se interessado pelo blog, você pode ir até a página inicial e assiná-lo.

Como citar Veras, Hermes de Sousa. 2018. “Como sumimos minha mãe”, Publicado em hermesveras.wordpress.com, link: https://goo.gl/D3HQC3. Acesso em [dd/mm/aaaa].

Croniquinha tostada pelo sol

16 de setembro de 2018 § Deixe um comentário

20180108_142424.jpg

Uma rua do Álvaro Weyne. Foto do autor.

“Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma”

– Mário de Sá-Carneiro

Minha alma ficou numa praia qualquer de Fortaleza, se afogando sem saber nadar, lembrando dos camarões ao alho e óleo perdidos. Não que não tenha desfrutado desse prato, o contrário é verdade. Mas sempre há espaço para mais, afinal, em matéria de comida sabemos que o alimento é apenas um pedaço da sensação vivida.

Eu não perdi minha alma, ela é que anda perdida, deitada de cara pro sol, na ponte dos ingleses, saudosa do amor de juventude intenso e dramático, das namoradas não tidas, dos erros com as que tiveram esse ocaso sentido. Perdida, também está, pela periferia disso tudo, já longe do oba oba turístico, Praia da Leste Oeste, e mais distante ainda: bairro do Álvaro Weyne, com suas crianças soltando pipa, atrepando-se em caminhões em movimento, brincadeira às vezes fatal. Meninas sendo corrigidas de forma cruel por quererem a liberdade dos meninos (elas ainda hão de vencer, tenho uma irmã por lá, sendo forte, Fortaleza, persistindo na liberdade, ajudando na luta contra os fascismos que por lá, por cá e por todos os lados nos assombram).

Meninos presepeiros, bodegas agitadas de tragos e fofocas. Casas vendendo dindim, peixes betas, chips da Oi 31 anos, jogo do bicho, locadoras de vídeo com filmes estragados e locadoras de videogames, carregada de catinga do furdunço de gente que se enfurnava nos jogos e esqueciam dos asseios diários.

A alminha fica também triste, a lembrar do quintal do Bode Mag(r)o, repleto de capotes, pebas e outros bichos pequenos.

Minha alma paira, ainda, pelo Benfica, penoso de não me ter mais a andar pelas suas ruas, vagando por um bar qualquer, lanchonete, livrarias e bibliotecas, com um caderninho vagabundo de capa mole e estampa de surf, a anotar poesias fraquinhas e ruins, mas que naquele tempo era o sumo de uma vida. Quem é do Benfica fica, mas quem não ficou sabe que carrega uma cidade toda dentro de si a pesar as costas, abaixando a cabeça inteira.

Minha alma ficou triste, órfão do pôr do sol cedinho, do presente que era apreciar a imensa bola de fogo mergulhar nos verdes mares, alaranjado de arrebóis o céu sempre tão jovem dessa cidade do Futuro eterno. Alma apartada do nascer do sol prematuro, incandescendo a escuridão, banhando de luz uma noite insone, ou apenas as horas convencidas de que valeria a pena ficar acordado para mais um espetáculo, afinal, em Fortaleza o sol vem tão logo quanto some. O suficiente para nos tostar e alegrar, quando, obviamente, temos o abrigo de sombras, coqueiros, cajueiros, ingazeiras, juazeiros, constantemente cortados e derrubados sem sentido algum.

Minha alma ficou em Fortaleza, numa rede bem alojada em um armador de parede rebocada, balançando-se no vai e vem, sonolenta do mormaço, acordando-se para um cafezinho com cuscuz, um amor gostoso, uma leitura de poema de Lívio Barreto, outro cearense amoroso de redes e versos.

Não perdi minha alma, ela é que anda perdida por esses tempos, num limbo entre o espaço e o tempo, passado e futuro, esmagada pela crueza do real.


Caso tenha se interessado pelo blog, você pode ir até a página inicial  e assiná-lo.

Como citar Veras, Hermes de Sousa. 2018. “Croniquinha tostada pelo sol”, Publicado em hermesveras.wordpress.com, link:https://goo.gl/CWTcJR. Acesso em [dd/mm/aaaa].

 

Aprendendo com o turista aprendiz

4 de setembro de 2017 § Deixe um comentário

Neste ano estive em Foz do Iguaçu pela primeira vez.

Conheci a Unila e a sua importância, além disso, a potência das águas das Cataratas. Voltando para Porto Alegre de ônibus, estava mais do que necessitado de alguma leitura de retorno. Enquanto esperávamos minha companheira e eu o horário de saída do transporte, fomos a um shopping qualquer. Para minha felicidade havia uma livraria por lá. Pude comprar o novo box que reúne algumas obras do Mário de Andrade, da editora Novo Século. Os livros são: Pauliceia Desvairada, Macunaíma, Amar, verbo intransitivo; e finalmente, Contos Novos. Apesar da qualidade simples do material, pelo preço e boniteza do trabalho, além do conteúdo, é claro, valeu muito. Pude reler Macunaíma (1928), ou ler, pois a leitura compulsória de ensino médio é um fracasso. De antemão, deixo aqui alguns trechos pérolas de Macunaíma, para incitar (re)leituras, entrecortando o nosso texto:

“Então tudo acabou se fazendo a vida real. E os macumbeiros, Macunaíma, Jaime Ovalle, Dodô, Manu Bandeira, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Antônio Bento, todos esses macumbeiros saíram na madrugada” (Mário de Andrade, Macunaíma, p. 67).

O que faz do livro vivo é sua possibilidade de engatar-se em nossas trajetórias, dum passado, se atualizar nos afazeres do hoje. Na Unila, apresentei uma comunicação oral em um grupo de trabalho sobre cosmologias afroindígenas; tudo a ver com o mote e glosa de Macunaíma, que era negro e filho de uma “índia tapanhumas”, e em seu percurso, torna-se branco na superfície da pele, visita as macumbas no Rio de Janeiro e apronta poucas e boas em São Paulo, fazendo objetos, pessoas, entidades e tudo o mais, virarem uns nos outros, confundindo as fronteiras entre animado e inanimado, borrando nossas percepções e despertando diversos deleites estéticos sobre o encontro violento, mas também criativo, entre brancos, negros e índios no Brasil.

Embora tenha virado moda criticar tudo que refletiu sobre esse encontro, caso não tenha um linguajar fixo em determinadas políticas identitárias, às vezes muito céleres, mas ainda sim repletas de justificativas e válidas; a linguagem de Mário de Andrade em Macunaíma ultrapassa qualquer tentativa engessada de identificação. Ela é um próprio deslizar-se de experimentações: repleta de termos e falares da Amazônia (muito do Pará, a quem o escritor dedicou diversos escritos e carinhos).

“Os manos levaram um susto. Então Jiguê lembrou que eles podiam ir na Europa também, atrás da muiraquitã. Dinheiro, inda sobravam quarentas contos de cacau vendido. Macunaíma aprovou logo, porém Maanape que era feiticeiro imaginou e concluiu:

– Tem coisa milhor.

– Pois então desembuche!

– Macunaíma finge de pianista, arranja uma pensão do Governo e vai sozinho.

– Mas pra que tanta complicação si a gente possui dinheiro à beça e os manos podem me ajudar na Europa!

– Você tem cada uma que até parece duas! Poder a gente pode sim, porém mano seguindo com arame do Governo não é milhor? É. Pois então!” (idem, p. 117)

A experiência de ler parte da obra no ônibus, no trajeto Foz do Iguaçu – Porto Alegre, foi repleta de saudosismo e reencontros com Mário de Andrade. Mas finalizar o livro já em Belém, quando por lá estive novamente para matar saudades e fazer pesquisa, foi uma experimentação um quanto tanto mística, afinal, findei as páginas em um navio, voltando de Marajó para Belém. Dia esse marcado por diversos medos e receios: faltando energia no terminal hidroviário da capital paraense, com indícios de chuva e ainda mergulhados na noite, eu e todos que estavam no navio provavelmente viram suas vidas submergirem, talvez em definitivo, na forte Baía do Guajará.

águas marajoaras

A literatura sempre ultrapassa. Não foi sem motivo que resolvi cursar Ciências Sociais na Universidade Estadual do Ceará. Querendo ser algo parecido com um escritor, historiador e cientista social, não pensei duas vezes quando vi a grade curricular da UECE, repleta de disciplinas de História do Ceará, das Américas e do Brasil, Literatura, Geografia Humana, Psicologia Social, além das três grandes áreas das ciências sociais, as quais eu não sabia muito bem o que eram, afinal, não tive sociologia no ensino médio. Não sei a quantas anda essa grade da UECE, se já totalmente reformulada ou não, de qualquer modo, sei que estou, junto com várias outras pessoas que se aventuraram na área, marcado em definitivo por essa variação-formação um pouco caótica.

 


Referências:

Andrade, Mário de. Macunaíma. Barueri-SP: Novo Século, 2017.

No longo trecho aeroplano Belém-Porto Alegre, fiz um poema-homenagem para o Mário, caso você se interesse, pode lê-lo aqui.

Caso tenha se interessado pelo blog, você pode ir até a página inicial  e assiná-lo.

Como citar Veras, Hermes de Sousa. 2017. “Aprendendo com o turista aprendiz”, Publicado em hermesveras.wordpress.com, link: https://goo.gl/zhgPWs. Acesso em [dd/mm/aaaa].

Exílica

escritas exílio-mulher

O que você faria se soubesse o que eu sei?

o viço está atracado na viçagem

michelle cunha

o viço está atracado na viçagem

Arriscando no Risco

o viço está atracado na viçagem

Karina Kuschnir

desenhos, textos, coisas