Crise

13/07/2016 § Deixe um comentário

P. antes de se deitar, arremessou a bolsa no criado mudo.

– Estou exausta. Só mesmo você, M. para aliviar meus momentos de crise.
– Sério, madame? Não deixe isso influenciar nosso tratamento. Tudo de ruim deve ficar lá fora.
M., enquanto falava, organizava os cristais terápicos.
– Isso é tão bom. Sabe, andei pensando. Agora sei por que as pessoas preferem os cachorrinhos, os animais, entende? Eles não são falsos. Não mentem, e valem mais do que muitas pessoas. Assim como essa pedra. Ela não quer nada em troca, apenas equilibrar minhas energias.
P. tinha um cristal roxo no abdômen.
– Meus chacras devem estar um horror. Ou o meu carma, para sofrer tanto engano, né? Dessa vez foi a minha costureira.
Em outro ambiente, P. repetiu o gesto, jogando a bolsa para L. guardar. Sentou em uma cadeira estofada, enquanto tirava os sapatos.
– Hoje estou um trapo mesmo. Lembra daquela costureira? Sim, eu sempre pagava a mais para ela. Contratei até a filha para ser minha secretária do lar.
L. ouvia com atenção, aliás, fingia ter atenção. Técnica adquirida pela experiência.
– Não é que eu descobri que ela não precisava do dinheiro e da ajuda? Eu fui na casa dela, finalmente tive coragem, pois é numa baixada. Meu amor, ela já tem até TV por assinatura e internet banda larga. Esse pessoal é mesmo folgado. Se ela tem dinheiro para ter isso, por que não se muda? Aquele bairro terrível de longe e feio. E fingindo, cobrando as costuras uma miséria, só para eu ter pena e dar mais dinheiro. Eu agora estou vacinada contra esse tipo de gente!
L. estava em momento crucial e perigoso, com a lâmina em um canto de unha.
– Mas é esse tipo de gente que nosso governo criou. Uma mulher no poder só podia dar nisso, não é? Ai! Cuidado, menina!
L. perfurou um lugar misterioso, aquelas partes de nossos dedos que jorram muito sangue.
P. calou-se durante todo o processo, voltou para casa chupando dedo. No automóvel, o banco do lado esquerdo – tinha um carro britânico – recebia algodões chamuscados de sangue que ela não cansava de tirar do ferimento.
Depois de renovar o visual das unhas e equilibrar os chacras, parecia aliviada. Falou pra si:
– Vamos lá. Energias equilibradas, visual tratado, novas amizades, nada de se enganar com pessoas falsas. Tinha uma teoria: seu corpo não era apenas seu corpo. Estava conectado com toda a sociedade, os planetas, os cosmos. Agora que estamos em um governo novo, pensava ela, a vida seria outra.
É isso mesmo, nada de falar em crise!

 

P.S: Originalmente publicado no blog literário Vem-Vértebras. Republico aqui para tirar poeira do blog e por ser um texto bem contemporâneo. Mais sobre a coluna Etnoliteratura, aqui.

Aforismo

02/07/2015 § Deixe um comentário

A filosofia, um poema, ou a vida, que são a mesma coisa, engendram o casamento entre as entranhas e o coração.  O restante é resíduo.

Wescley

29/06/2015 § Deixe um comentário

Wescley seria o anti-herói. Sua trajetória concisa viraria um ardor voluptuoso contra o Estado. Ao findar dos tempos, sua época, estaria herói.

Falhou. Não atingiu nem o status de mártir. Preso aos dezesseis anos, assassinado pela polícia aos dezesseis e meio com uma única bala. Sua foto serviu nem para sensibilizar alguns peixes graúdos, estavam ocupados em demasia com a erradicação da fome em África.

Wescley seria.

[Contos incompletos]

Alucinação

28/05/2015 § Deixe um comentário

“(… ) e meu delírio é experiência com coisas reais”

Não tenho vergonha de ser homem e branco, me envergonharia escrever sem ter vergonha de ser homem e branco.

[Trecho de um romance incompleto]

Trama I

01/05/2015 § 1 comentário

Cadê a tua presença?
Se quero lembrar,
Rumino tua essência.
O cheiro que deixa resíduos

E não a individuação
Movedora de falsa trama.
Pulveriza-se, visita minha cama.
Voa. Vive. aVulça. Vulva.

Melogramas – I

18/01/2015 § Deixe um comentário

I

Desassociados; um corpo vaga

Enquanto um espírito não existe.

Desencontrados, são setas, são nada,

Dois órgãos e um coração triste.

Instantâneo etnográfico-literário: Floresta Parto, Ananindeua-PA, AMAZÔNIA

13/04/2014 § 2 Comentários

O velho expectorava catarros insondáveis enquanto acompanhava o movimento da rua – joanetes enormes brigavam com as laterais de seus sapatos. Os pés ignoravam a cabeça e os olhos. Estes fitavam as garotas de jeans comprido que passavam pelo passaredo.

– É para escapar das picadas dos carapanãs e maruins, concluiu.

Nos bares as aparelhagens particulares se transformavam em bem comum. A cultura é pública, disse certa vez Geertz. Então um aluno de ciências sociais um dia interpretou essa citação do antropólogo americano como uma apologia à pirataria de cds e dvds. A interpretação é pública.

– Juarez! – chamou a velha do velho. Engolindo catarros verdíssimos, o velho introspectivo e tuberculoso fitou pela última vez a última moça sumir quando dobrava a esquina.

Um cachorro manco cruzou a rua mas ninguém viu. Os moleques jogando bola, improvisavam tijolos como fossem traves. Quando em vez a bola batia nos portões alheios, as mães estavam no culto protestante.

Protestando sozinho estava mesmo Pai Waldemar, fazendo pontos riscados, conversando com as folhas e desejando equilíbrio. Cantarolava uma música em homenagem à cabocla Jarina.

De madrugada, o velho já recolhido, a velha repelia peidos longos e sonoros, a fazer dueto com os derradeiros rojões lançados para o céu em comemoração ao vencedor do clássico Remo x Paysandu.

Os joanetes ardiam no frio da madrugada.

O cachorro cruzou novamente a rua, dessa vez teve com uma moto que relampejou no asfalto. O coitadinho escangalhado, o motoqueiro recomposto e seguindo o seu caminho. Já o defunto, atropelado, ficaria ali por algum tempo. Depois jogá-lo-iam num saco plástico acinzentado, meio aberto, perto do quilômetro 8 da BR 316. Seria possível acompanhar todo o seu estado de decomposição…

Antes do bisbilhoteiro adormecer, cantou a rasga mortalha.